sábado, 14 de julho de 2012



                                                         A nova queixa do imperador



       O imperador voltou a queixar-se !  E uma queixa de tal criatura, desacomoda a quem quer que lhe esteja próximo. A vida de imperador é por demais laboriosa, em meio a tantas audiências, e queixas alheias. Em sua agenda diária estavam convites para bailes da corte, compromissos diplomáticos, almoços e ceias obedecendo a um rígido protocolo estabelecido, colóquios nem sempre agradáveis dos quais participavam duques, arquiduques e marqueses. Os últimos, de particular importância, pela localização de suas terras às margens do império, garantia de vigilância e proteção às fronteiras. Afora isso, atender aos ávidos por ter concedidos títulos de nobreza. Mas suas atribuições não costumavam causar-lhe dissabor, atendia à nobreza e ao profanus vulgus com igual deferência.

       Era tarde, quase noite, quando do encontro. Ele, o imperador, sério, muito sério, havia quase dureza em seu olhar. Ela, a suspiradora de versos, caminhou em sua direção sorrindo, como de hábito - o encontro e a possibilidade daquele esperado abraço, eram sempre motivo de gozo. E foi depois do abraço, singularmente plural, que ele também sorriu. Olharam-se, conversaram,  mediram-se, desejaram-se ... e ele, então, queixou-se. A interlocutora nada disse, se dissesse, seria com as mãos, tocando-lhe o rosto, afagando.

       Insensível a olhar pro próprio umbigo, no momento da queixa, ela não deu-se conta imediatamente da gravidade do incômodo. Depois, sozinha, ao lembrar daqueles olhos, da seriedade que havia encontrado em seu semblante enquanto caminhava sorridente em sua direção  foi que deu-se conta da intensidade do desagrado.  Não bastasse sua insensibilidade, ainda      pedira-lhe algo que, naquele momento, era impraticável. Ah as mulheres e suas necessidades, sempre urgentes !!  

       Dito isso, este narrador de pretensões oniscientes tem a acrescentar, que o homem atrás do título é exatamente isso: um homem. E que, embora atenda de forma irretocável às suas responsabilidades, tem a prerrogativa de, por vezes, desejar não estar onde está, ou não ser quem é. Sobre a mulher, este que conta a história, entende sua natureza passional e o rebuliço que os olhos de anzol causam em seus sentidos, transtornam-lhe, despertam-lhe apetites. Sabe do quanto importam a ela os sentimentos dele, que preocupa-a vê-lo cansado, desanimado, desencantado; do prazer com que ela cria e envia-lhe versos, diariamente, como afagos.

       Frente a frente, aquela mulher diria àquele homem, longe dos olhos e ouvidos curiosos da corte e de todas as demandas que o exigiam:   Ah, imperador, meu imperador ... pra ti meus versos, meus suspiros, meus beijos, meus olhos, meus braços e abraços ... Porque ... de ti ... só quero ... mesmo ... a ti !!

1 comentários:

Leila Silveira disse...

se fosse escrever sobre cada suspiro que leio aqui,suspiraria antes,longamente...como quem ama.

Postar um comentário